O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, foi eleito presidente do Brasil. Lula derrotou o candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno da disputa presidencial e voltará à Presidência pela terceira vez, impondo uma inédita derrota nas urnas a um ocupante do Palácio do Planalto que buscava um segundo mandato.

Com 98,81% das seções eleitorais apuradas, Lula alcançou 50,83% dos votos válidos, não podendo mais ser alcançado por Bolsonaro, que somava 49,17%, de acordo com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), na eleição mais acirrada desde a redemocratização do Brasil.

A apuração foi apertada desde o início, com Bolsonaro ficando à frente até 67,76% das seções apuradas, quando Lula tomou a frente com 50,01% dos votos válidos.

Lula, que foi presidente por dois mandados de janeiro de 2003 ao fim de 2010, é a primeira pessoa a conquistar um terceiro mandado presidencial na história democrática do país. 

Aos 77 anos, completados na última quinta-feira, ele levará o PT de volta ao poder pouco mais de seis anos após o partido de esquerda ter sofrido o impeachment da então presidente Dilma Rousseff pelas chamadas “pedaladas fiscais” e herda um país dividido.

Com apenas 1,66 ponto percentual de distância, foi uma vitória bastante mais apertada do que o previsto pela maioria das pesquisas – o resultado ainda mais ajustado do que o de 2014, quando Dilma derrotou Aécio Neves. Apenas o levantamento da CNT/MDA previa um empate entre os adversários.

Campanha

A campanha do petista atraiu apoio dos mais diversos setores da sociedade. Nomes como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a senadora Simone Tebet (MDB) –terceira colocada no primeiro turno– e o ex-ministro Henrique Meirelles endossaram Lula no segundo turno, reforçando uma campanha que já havia terminado na liderança na primeira votação.

Bolsonaro, que passou meses atacando sem provas o sistema eletrônico de votação, dizendo ser passível de fraude –o que é rejeitado por autoridades eleitorais e especialistas independentes–, entra para a história como o primeiro candidato à reeleição a sair derrotado nas urnas em uma disputa presidencial no Brasil.

Lula voltará à Presidência 12 anos após ter encerrado seu segundo mandato, período em que foi do céu ao inferno. Se deixou a Presidência com 87% de aprovação, passou 580 dias preso condenado por corrupção no âmbito da operação Lava Jato, viu a sucessora Dilma Rousseff ser alvo de um impeachment e, barrado legalmente, não pôde concorrer na eleição de 2018.

Agora o petista não deve nada à Justiça, uma vez que suas ações foram anuladas pelo STF (Supremo Tribunal Federal), que viu parcialidade nos processos da operação Lava Jato, e desde que se lançou candidato ao pleito deste ano sempre apareceu em primeiro lugar nas pesquisas.

O resultado confirmou o favoritismo ao longo de toda campanha do ex-presidente, que agora retornará ao Planalto tendo como vice-presidente seu ex-adversário Geraldo Alckmin (PSB) –nome de centro-direita que foi importante para o presidente consolidar sua aliança ampla formada para derrotar Bolsonaro.

Desafios e promessas

A definição da equipe econômica será a primeira pressão que Lula terá de gerir. Investidores e operadores do mercado financeiro repetem que não basta que o petista diga que será responsável com as contas públicas, mas querem a escalação para a Fazenda, assim como um detalhamento do que propõe para substituir o combalido teto de gastos.

Incluído na Constituição em 2016 para limitar o crescimento das despesas públicas à variação da inflação, o teto de gastos foi driblado pelo governo Bolsonaro e é consenso de que necessitará ser substituído. Toda alteração terá de contar com a chancela do Legislativo.

Lula promete manter o Auxílio Brasil em R$ 600 e também disse que vai aumentar acima da inflação o valor do salário mínimo, que indexa também boa parte dos gastos previdenciários.

Se seus dois primeiros mandatos coincidiram com o boom das commodities, ajudando-o a reduzir a desigualdade e tirar milhões da pobreza extrema, agora o cenário externo é mais nebuloso, com temor de recessão global e uma guerra em curso na Europa.

O futuro presidente brasileiro também passará por um escrutínio externo no quesito ambiental. O petista prometeu reprimir a mineração ilegal na floresta amazônica e conter o desmatamento que atingiu um pico em 15 anos sob Bolsonaro.

O dia do eleito

Após votar em São Bernardo do Campo (SP) nesta manhã, Lula disse que, caso fosse o eleito, espera que o atual governo entenda a necessidade de que haja uma boa transição entre a administração de Bolsonaro e o futuro governo petista.

“O que eu gostaria é que a transição fosse como aquela que o presidente Fernando Henrique Cardoso permitiu. 

A transição é para você ter todas as informações pertinentes à máquina do governo, o funcionamento da economia. E eu espero que o governo seja civilizado a ponto de compreender que é necessário ter uma boa transição. Então eu estou acreditando que se eu ganhar as eleições vai ter uma transição”, disse Lula. A posse está programa para 1º de janeiro de 2023.

O ex-presidente votou por volta de 9h30 na mesma escola em São Bernardo do Campo onde, segundo ele, vota desde 1989. Centenas de apoiadores o esperavam do lado de fora e também dentro da escolas, próximos da seção eleitoral de Lula.

Estava acompanhado da esposa, Rosângela Silva, do candidato a vice, Geraldo Alckmin (PSB), do candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, e dos deputados eleitos Marina Silva, André Janones e Guilherme Boulos, entre outros aliados.

Lula comentou ainda a necessidade de mexer no Orçamento, caso seja eleito, e rever prioridades, como recursos para educação, saúde e reajuste de servidores. “Onde tiver dinheiro nós vamos buscar. O Orçamento é mexível. É certo que vamos pegar o Orçamento feito por outro governo, mas sempre tem a possibilidade de manusear de conversar com o Congresso”, disse.

Questionado sobre o caso da deputada bolsonarista Carla Zambelli, que ontem perseguiu armada um apoiador de Lula que a havia xingado numa rua de São Paulo, Lula classificou a cena como “grotesca” e “falta de civilidade”. “O que vimos ontem mostrado por uma deputada é o Brasil que não queremos. Estamos lutando para ter um país civilizado, onde as pessoas se respeitem”, disse.

Quem é Lula

Como o primeiro presidente da classe trabalhadora do Brasil, Lula tornou-se um símbolo global da luta contra a pobreza e da ascensão dos mercados emergentes. A combinação de políticas favoráveis ao mercado com programas sociais deu a Lula a reputação de um esquerdista moderado, e sua combinação de políticas é vista como um modelo para grande parte da América Latina.

Nascido no semiárido nordestino, Lula mudou-se com a família para São Paulo, onde engraxa sapatos e trabalha como entregador. Ele nunca terminou o ensino médio, mas aprendeu o ofício de metalúrgico. Ele ganhou fama nacional como um líder sindical que ajudou a combater a ditadura militar e, em 1980, fundou o Partido dos Trabalhadores.

Seu principal programa social, o Bolsa Família, recebeu reconhecimento internacional como uma das formas mais econômicas de reduzir a pobreza extrema e impulsionar a atividade econômica local. Sob Lula, a economia do Brasil cresceu no ritmo mais rápido em décadas e cerca de 20 milhões de pessoas saíram da pobreza. 

Ele é criticado por ter feito vista grossa à corrupção e se tornado amigo de líderes desonestos na Venezuela e no Irã. Figura carismática, no final do segundo mandato, Lula tinha uma popularidade em torno de 80%.

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