Com certeza você já imaginou poder conversar mais uma vez com algum amigo ou familiar já falecido. Essa, inclusive, é uma das formas recomendadas por especialistas para lidar com o luto.

Em entrevista concedida ao portal UOL em 2021, a professora aposentada do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo) e membro-fundadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte Maria Júlia Kovács explicou que, quando acontece uma perda por morte, o vínculo presencial é interrompido; no entanto, os laços com pessoas próximas, como irmãos, pai, mãe, avós e parceiros, jamais são cortados:  

“Muitas vezes, é como se a pessoa estivesse presente. A gente continua falando com ela, contando as coisas. Isso favorece a memória. A pessoa se mantém em nossa vida, não de forma presencial, porque não é mais possível, mas como lembrança”, disse Kovács ao UOL.

Hoje, o processo de luto, que é composto por diversas etapas, vem sendo afetado pela tecnologia. Muito além das fotografias e vídeos gravados com celular, é possível visitar os perfis de pessoas queridas nas redes sociais, receber lembranças inesperadas de aplicativos como Google Photos ou TimeHop, e até mesmo, em casos mais inusitados, descobrir que um amigo ou parente falecido foi capturado pelas lentes do Google Street View.

Tudo isso nos fornece novas e diferentes maneiras de revisitar lembranças e rememorar as pessoas que já não estão mais conosco. No entanto, não pára por aí.

Por meio dos avanços tecnológicos, a chamada “grief tech” (tecnologia do luto) vem dando passos cada vez mais largos. Um deles é o controverso sistema de inteligência artificial que permite conversar com quem já partiu. 

Como funciona?

Recentemente, portais internacionais noticiaram que uma mulher de 87 anos “conversou” com as pessoas que compareceram ao seu velório. Falecida em junho deste ano, Marina Smith surpreendeu amigos e familiares, que puderam ter uma última conversa com ela por meio de uma experiência conversacional holográfica em vídeo.

Isso foi proporcionado pela StoryFile, startup baseada em Los Angeles e fundada pelos filho de Marina, Stephen Smith, e por Heather Maio-Smith. Tudo começou como um projeto de Heather para preservar a memória de sobreviventes do Holocausto, ainda em 2010.

Assista ao StoryFile de Marina Smith, disponível aqui.

Após o desenvolvimento de um protótipo em 3D, Maio-Smith levou o projeto à Fundação Shoah e ao Institute of Creative Technologies, ambos da Universidade do Sul da Califórnia, e firmou a parceria para desenvolver a metodologia de entrevista interativa.

Funciona assim: com 20 câmeras, a pessoa cuja memória será preservada responde em torno de 250 perguntas. Os dados gerados por essa entrevista são armazenados em um software que pode recriar virtualmente a fala da pessoa, mesmo após sua morte.

Em 2017, Smith lançou a StoryFile para criar uma plataforma automática, sem código e baseada na nuvem, com a intenção de ampliar o alcance dessa tecnologia.

De acordo com o portal Futurism, no velório de Marina Smith, as reações foram diversas: houve quem achou a tecnologia extraordinária, mas também quem tenha ficado assustado com o que é possível fazer por meio de inteligência artificial.

Outras iniciativas

A startup StoryFile não é o único exemplo de empresas que estão trabalhando em tecnologia para se reconectar com os mortos.

Em 2021, o Fantástico noticiou o uso de inteligência artificial para a troca de mensagens com pessoas falecidas. O canadense Joshua [sobrenome não divulgado pela reportagem] usou um programa de inteligência artificial desenvolvido pela Open AI para simular cerca de dez horas de conversa com a noiva falecida há oito anos; a HereAfter AI permite interações com entes queridos por meio de um aplicativo de celular; entre outros.

E o que isso significa?

Para o diretor do departamento de robótica da Universidade da Califórnia, Amit Rooy-Chowdhury, é comum que, ao se desenvolver uma tecnologia tão sofisticada, haja uma tendência a extrapolar a situação.

Exemplos de situações em que sistemas semelhantes foram utilizados são a aparição da atriz Carrie Fischer no filme Star Wars: Episódio IX – A Ascensão Skywalker, lançado em 2019, três anos após sua morte, e a narração do chef Anthony Bourdain, que morreu em 2018, em um documentário sobre sua vida lançado em 2021.

Casos como esses levantam a discussão sobre de que maneira essa tecnologia pode ser utilizada para a produção de deep fakes, mas também como afetam a forma como a sociedade encara a morte e o processo de luto.

Joanna Stern, colunista de tecnologia do Wall Street Journal, escreveu na newsletter Modern Loss: “Essa é a questão quando se trata da morte — na maior parte do tempo, ela nos pega de surpresa. Não existe uma forma de entender completamente como será o vazio em nossas vidas uma vez que as pessoas queridas se forem. E não há como magicamente mandá-lo embora. Mas, às vezes, publicar uma homenagem, enviar uma mensagem ou até mesmo falar com um robô pode ajudar um pouquinho” (tradução nossa).

A preservação da memória de entes queridos — o que motivou a criação da StoryFile — é uma forma importante para manter essas pessoas em nossas vidas, mesmo que não presencialmente. Isso possibilita até mesmo que as próximas gerações conheçam melhor seus antepassados e a história da família.

Essas formas de comunicação com as pessoas falecidas são, inclusive, uma forma de elaborar e processar internamente a perda. Escrever cartas, conversar, revisitar memórias, tudo isso ajuda a atravessar as fases do luto.

De acordo com a psicóloga Deusa Samu, em entrevista ao UOL, a decisão de usar esses recursos é exclusivamente da pessoa que está vivendo o luto. “Independentemente de incentivar ou não a atitude do enlutado, as pessoas que convivem com ele devem oferecer uma parceria incondicional. É dizer ‘estou aqui’ e esse ‘estou aqui’ engloba solicitude, companhia e acolhimento, e não julgamento. É não interferir dizendo ‘não vai ler, não vai fazer, não vai mandar mensagem’. Esse tipo de postura é desrespeitosa e anti-humana”.

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